A Cabeça de Cada Homem

Olá irmãos,

Gostaria de fazer uma reflexão junto com vocês de um texto das Escrituras que acredito ser normalmente mal compreendido por certas questões: principalmente do entendimento espiritual errôneo (ao meu ver) a respeito de autoridade e em certas deficiências e/ou inclinações das traduções mais tradicionais do texto em questão.

Vamos ler a passagem juntos:

“Mas, eu quero que vocês saibam, que a cabeça de cada homem é o Ungido, a cabeça da mulher é o homem, e a cabeça do Ungido é Deus. Todo homem, quando ora ou profetiza, tendo sua cabeça abaixo, {ou, sob} desonra sua cabeça verdadeira: o Ungido.

E cada mulher orando ou profetizando com a cabeça descoberta desonra sua cabeça: o homem. Pois seria o mesmo que se ela estivesse com os cabelos rapados. Pois, se uma mulher não está coberta, deixe-a também rapar os cabelos. Mas, se é vergonhoso para uma mulher ter os cabelos cortados ou rapados, deixe-a ser coberta.

Porque um homem é obrigado a não ter sua cabeça coberta [sinalizando submissão à autoridade humana] pois ele possui a imagem e glória de Deus. Mas a mulher é a glória do homem. Você vê, o homem não foi extraído da mulher, mas a mulher foi extraída do homem.

Portanto, o homem não foi feito para a mulher, mas a mulher foi feita para o homem. Por esta razão, a mulher deve ter um sinal de sua submissão à autoridade em sua cabeça por causa dos anjos. No entanto; no Senhor, nem a mulher é completa sem o homem nem o homem completo sem a mulher. Pois, assim como a mulher foi extraída do homem, também o homem provém da mulher. Mas todas as coisas são de Deus.

Façam este julgamento por si mesmos. É apropriado a uma mulher orar a Deus descoberta? Não os ensina igualmente a natureza que se um homem tem cabelos longos, é uma desonra para ele? Mas se uma mulher tem cabelos compridos, é uma glória para ela. Porque o cabelo dela, lhe é dado como uma cobertura.

Mas se qualquer um tem uma forte discórdia sobre isso, nós não temos tal costume, nem o tem as assembleias dos que Deus chamou para fora.”

1 Coríntios 11:3-16 (tradução livre da versão em inglês “The Father’s Life”)

Antes de iniciar a reflexão sobre o texto acima preciso primeiramente explicar algo a respeito dessa versão que estou usando. Infelizmente ela não está oficialmente disponível em português ainda; senão eu simplesmente indicaria a leitura do prefácio da mesma, o que os habilitados à leitura em inglês o podem fazer e pular esse parágrafo ;). Ao lerem o texto acima, irão perceber algumas palavras em itálico. Tais palavras não existem no texto original mas foram acrescentadas pelo tradutor a fim de que tornasse mais claro o significado do que o autor disse. Muitos podem pensar, como de fato muitos pensam, que isso seja algum tipo de corrupção ao texto sagrado original mas isso não é verdade. Na realidade qualquer pessoa que já tenha feito um trabalho de tradução sabe bem que por vezes para se traduzir com maior, e não menor, fidelidade um texto você deve fazer certas alterações de palavras a fim de que a fidelidade ao sentido, o que de fato é o que se deseja transmitir, seja mais acurado do que um certo “stricto sensu” (sentido restrito) de cada palavra isoladamente. O que certamente não significa que não deva ser feito com muito zelo e responsabilidade. Portanto, tais palavras em itálico, estão antes para clareza do que para indução particular do tradutor. Por outro lado isso não significa que qualquer que seja o tradutor, seja esse ou outro qualquer, não possua uma visão própria tal qual julgue ter recebido de Deus, e ao selecionar uma dentre as muitas possíveis traduções de um texto ou palavra não seja de algum modo influenciado por sua própria visão. Ainda assim, mesmo lendo-se o texto sem tais palavras; acredito que por inferência e compreensão do contexto chega-se à mesma conclusão como procurarei demonstrar. O texto entre colchetes diferente das demais palavras em itálico não é necessariamente um sentido implícito ao texto mas sim uma explicação particular do tradutor para o benefício do leitor, e a palavra “sob” que se encontra entre chaves consiste em uma alternativa legitima, ou seja, no escopo das possibilidades literais da palavra grega que foi traduzida por “abaixo”, ela é uma alternativa, uma possível tradução.

Durante os primeiros anos da minha vida cristã considerava e ouvia e entendia esse texto como sendo um texto que falasse sim, sobre uma ordenação de Deus a respeito de autoridade, mas também sobre a questão se era justo e/ou necessário o uso do véu por parte das mulheres. Realmente mesmo que não compreendesse bem o motivo pelo qual o simples véu tivesse algum tipo de real relevância, ainda assim, como quase que de maneira unânime ao meu “redor” era-se ensinado dessa forma, não havendo muita razão para que julgasse (até para não ser contencioso) que não fosse assim.

Contudo, após ler um livro (vou indicá-lo ao final) a respeito de autoridade e que abordava algo sobre esse texto, (não unicamente o livro mas a real maturidade de caminhar com Deus no Espírito, sendo o livro uma confirmação para as inclinações de inspiração celestial) comecei a perceber que a verdade contida no texto nada tem a ver com véu; mas sim somente com a autoridade de Deus.

Em primeiro lugar, como já havia dito, há problema com uma grande parte das traduções desse texto, como também em muitos outros lugares da bíblia é verdade. Essa palavra “véu” estritamente falando não está no texto grego e, foi assim traduzida ao bel-prazer de tradutores do passado, em alguns lugares a acrescentando e em outros traduzindo-a de uma palavra do grego que teria o sentido de uma cobertura sobre a cabeça, mas que não seria necessariamente um pano ou tecido mas podendo ser também uma cobertura espiritual por exemplo. Por isso disse que a tradução por “véu” veio de uma ideia relacionada a uma escolha talvez baseada ao costume dos tradutores do passado e não necessariamente à mente de Deus. Sim, é verdade que os tradutores possam ter escolhido a palavra “véu” com base em um costume muito antigo, talvez da tradição judaica por exemplo, (lembrando que há diferença entre uma tradição santa e divina e uma meramente humana que, normalmente, confronta e desonra o mandamento de Deus como Jesus demonstra em Mateus 15) mas que, como veremos, de modo nenhum representa e transmiti com fidelidade o coração e a mente de Deus.

Compreendendo isto, e tendo diante de nós uma tradução que seja mais próxima da verdade, como creio, vamos buscar entender qual é o verdadeiro ensino que Deus quer nos falar aqui.

A igreja (assembleia dos chamados para fora) de Corinto, aos que têm conhecido o contexto em que Paulo escreveu essa carta, era na ocasião uma igreja nova, ainda imatura e pouco desenvolvida espiritualmente; motivo pelo qual Paulo afirmou no início da carta que eram carnais. Assim sendo havia diversas confusões e o entendimento espiritual deles era limitado e muitas vezes distorcido também.

Dessa forma Paulo, segundo a sabedoria que Deus lhe deu, estava buscando corrigir aqueles irmãos em diversos assuntos, e ajudá-los com diversas dúvidas que tinham. Uma delas era sobre essa questão da autoridade entre eles, homens e mulheres.

É preciso enfatizar que o ensino aqui consiste nas relações de autoridade na igreja, entre os santos, (que são os que oram e profetizam) e não com respeito às autoridades seculares.

Sobre esse assunto Paulo começa estabelecendo coisas de extrema importância. Veja a primeira: “o Ungido é a cabeça de cada homem”. Ou seja, cada homem individualmente possui uma única cabeça que é o Ungido. Essa palavra “cabeça”, se você é crente e conhece algo sobre a realidade de Deus no Ungido (em Cristo) sabe que o corpo humano é uma figura do corpo de Deus (Cristo). Sim, disse que o corpo humano é uma figura do corpo de Deus e não o contrário. Quando Deus criou o homem, ele o fez conforme a Sua imagem e semelhança, o que significa que ao criar o homem com uma cabeça e um corpo, Ele o fez baseado em Si mesmo, O qual possui, como possuía, Deus é Eterno, uma cabeça e um corpo. Não há tempo para falar disso especificamente mas se Deus é eterno e também imutável, significa que Ele sempre foi assim mesmo como o é “agora”.

Dessa maneira, maravilhosamente, ao observarmos o nosso próprio funcionamento, ainda que tal funcionamento esteja manchado pelo pecado, podemos apreender coisas a respeito do próprio Deus, ainda que o seja de forma limitada como na realidade sempre o será. Mas a questão é que: cada um de nós têm um corpo que está sujeito à nossa própria cabeça, mente ou cérebro você poderia dizer também, pois são similares. Cada membro do nosso corpo, seja um dedo, a mão, olhos, etc, estão sujeitos e seguem a ordem e comando da nossa mente, cabeça. Se, por exemplo, faço uma pintura; ainda que o instrumento que use para tal seja minha mão segurando um pincel, o projeto e toda a regência do processo é “controlado” e administrado pela minha mente, minha cabeça. Também se poderia dizer que eu sou o autor da obra e não minhas mãos; da onde deriva a palavra autoridade, aquele ou o que, que possui a autoria.

O que podemos entender é que o próprio Ungido é diretamente a cabeça de cada homem na igreja, tendo completa e total, ou deveria, autoridade sobre cada um particularmente.

Mais a frente Paulo diz que: “Todo homem, quando ora ou profetiza, tendo sua cabeça abaixo, {ou, sob} desonra sua cabeça verdadeira: o Ungido.” Nessa parte, acredito que muitos de nós sempre lemos pensando na primeira e segunda menção do termo “sua cabeça” como a nossa própria cabeça física, (nas traduções tradicionais especialmente) já que estamos com a ideia do véu ou lenço fixa em nossa mente. Porém, como estamos vendo, antes de Paulo entrar nessas questões sobre “tipos de coberturas” que trazem desonra a “verdadeira cobertura”; ele estabeleceu como uma rocha, bem como Deus em Deus (Deus o cabeça do Ungido), que a cabeça de cada homem é o próprio Ungido, ou seja, que a minha ou a sua cabeça é o Ungido, Cristo. Portanto, o tal termo “sua cabeça” do texto pode sim se referir tanto à cabeça física do homem como à sua Cabeça espiritual, o Ungido; e é necessário buscar luz da parte de Deus e compreender qual termo se refere a qual cabeça.

Dessa forma temos que pensar e buscar de Deus o que seria orar ou profetizar com a cabeça abaixo ou sob. Pois, se de fato o Ungido é a minha cabeça, não é certo que eu mesmo, e minha própria cabeça, minha própria mente, estão abaixo e sob essa Cabeça celestial? Porém, caso abaixe minha própria cabeça e a coloque sob uma outra cabeça que não esta que está no céu, não estaria eu então desonrando a Cabeça celestial e não Lhe concedendo a posição, poder e autoridade que Lhe são devidos? Pense por um instante: não seria realmente o ato de orar ou profetizar atividades essencialmente espirituais, devendo ser exercidas sob a direção e orientação do Espírito Santo, o qual transmiti a autoridade e regência da Cabeça celestial, o Ungido? Portanto, ao orar, profetizar, o que acredito sejam apenas exemplos de possíveis serviços espirituais, devemos assim estar debaixo da autoridade da Cabeça, o Ungido, e não de qualquer outro ser, inclusive o homem, ainda que seja um homem de Deus.

Concluindo essa primeira parte vamos considerar o lugar em que Paulo diz que “…um homem é obrigado a não ter sua cabeça coberta pois ele possui a imagem e glória de Deus.” Percebam só, é uma obrigação de cada homem não permitir que sua cabeça seja coberta (o que seria o mesmo que colocar-se abaixo ou sob outra cabeça) por nenhuma outra cabeça senão única e exclusivamente à Cabeça celestial, o Ungido. Paulo afirma que todo homem possui a imagem e a glória de Deus, se referindo à sua criação, e que esse é o motivo pelo qual não deve ter sua cabeça coberta; ou seja, nenhum homem tem a imagem e a glória de Deus por si mesmo ou de outra criatura mas elas derivam de Deus e lhe são transmitidas por meio Dele e segundo Sua unção; todos os homens estão iguais perante Deus e não há nada originalmente que os diferencie um do outro nessa relação com Deus, antes todos estamos aptos a nos submetermos e nos colocarmos em uma relação de direta submissão à verdadeira Cabeça, Jesus. Isso é verdadeiro com relação a imagem e glória da criação original, mas certamente também o é com relação a nova criação no Ungido. Por isso, Jesus ensinou que na igreja, que de fato é o corpo dessa Cabeça celestial, um membro não pode exercer autoridade sobre o outro (Mateus 20:25-28), como o fazem os gentios, já que há um só Deus e Senhor a quem é dada toda autoridade no céu e na terra, o Ungido. Caso alguém coloque a si mesmo em uma posição de cobertura espiritual sobre um irmão ou sobre um grupo de irmãos, o tal esta, consciente ou não, assumindo uma posição de “concorrência” e usurpando uma posição da qual unicamente um é apto e digno para tal, o Ungido.

Ainda que essa ideia de uma tal cobertura espiritual de alguns irmãos sobre os demais seja muito comum nas assembleias dos santos (igrejas) percebemos que na realidade ela é espúria e não harmônica ao coração e à mente de Deus.

Os prejuízos que tal ‘substituição’, ainda que em parte (devido a completa falta de capacidade de uma cabeça que seja humana), da Cabeça celestial por uma cabeça terrena são muitos. O povo de Deus não foi chamado para ter um “rei” como o tem os demais povos, mas Deus mesmo é Aquele que tem a dignidade real sobre os santos.

É verdadeiro também que ainda que a vontade de Deus não fosse que o povo de Israel tivesse um rei como as outras nações gentílicas, e que ao decidirem isto eles rejeitaram ao Deus de Israel (assim como os que submetem sua cabeça aos homens rejeitam/desonram o Cabeça – Deus do novo Israel), ainda assim Deus abençoou a Davi como rei por exemplo, e nele, em Davi, podemos ver certos aspectos do verdadeiro Rei; motivo pelo qual Deus o escolheu também. Todavia, Deus o abençoou um tanto quanto a despeito da escolha da nação de se ter um rei humano; mas na realidade apesar dessa escolha, apesar dessa desonra ao único e verdadeiro Rei, Ele misericordiosamente ungiu e abençoou a Davi, muito até por causa do próprio Davi é verdade, que como rei foi uma benção ao povo. Ainda assim, a nação não deixou de ter aqueles prejuízos dos quais Deus havia falado a Samuel para advertir ao povo com respeito a se ter um rei (1 Samuel 8:9-18), nem mesmo com Davi, o qual poderíamos considerar como uma “boa autoridade humana” que foi ungida por Deus o qual em Sua misericórdia atendeu o povo nessa questão ainda que tendo sido desprezado por eles.

Os prejuízos e perdas do povo por constituírem para si um rei humano no tempo de Samuel, perdas as quais Deus determinou a Samuel adverti-los, se assemelha em muito aos prejuízos e perdas do povo da nova aliança por abaixarem suas cabeças e aceitarem sobre si outra cobertura que não o próprio Senhor Jesus. Só que, se o povo terreno de Deus teve perdas terrenas, o povo celestial, que nasceu do alto, têm então sofrido perdas espirituais, celestiais; cujas terrenas são figuras (será interessante se meditar sobre isso diante de Deus no texto de 1 Samuel que citei acima).

Portanto, que cada irmão sirva o seu próximo com os dons que tem recebido de Deus sem exercer qualquer autoridade sobre seu irmão; e que cada um não se submeta a qualquer outro homem, ou outra coisa qualquer, senão unicamente à Cabeça celestial, segundo sua mais absoluta dignidade e capacidade, o Ungido, Cristo (Juízes 9:7-15). Desse modo, a glória e o ser de Deus serão mais plenamente manifestados. Isso não significa que o próprio Ungido não possa expressar sua vontade e autoridade através de um irmão ou irmã, e que quando Ele expressa a Si mesmo por meio de um membro do corpo tenhamos que nos submeter Àquele que fala, porém, isso não torna tal irmão ou irmã em uma autoridade (a autoridade é Jesus) ou cabeça sobre o outro.

Sei que uma boa parte daqueles que estão lendo esse artigo, estão questionando muitas coisas das que estou dizendo, devido ao que têm normalmente aprendido e por outras passagens das Escrituras que aos seus olhos parecem não serem harmônicas a tudo quanto venho dito até aqui. Sim, o fato é que também tive de passar por isso, e pela vida e a luz do Espírito buscar a verdade em cada texto particularmente. Gostaria muito de talvez tentar ajudá-los com muitas dessas passagens mais críticas mas teria de gastar muita “tinta”, e o objetivo desse artigo é abordar especificamente esse texto em questão. Por isso mesmo disse que estarei indicando um livro que faz uma abordagem mais ampla sobre o tema da autoridade aos olhos de Deus, cujo qual recomendarei a leitura e colocarei o link ao final do assunto.

Apenas para se concluir, é preciso perceber, como utilizei o livro de Samuel e de Juízes para vermos os germes da revelação de Deus ao homem, que o estabelecimento de juízes entre o povo procedeu de Deus e não dos homens, diferente do rei. Do mesmo modo acredito que agora, possamos julgar entre os irmãos como fica bem evidente nessa carta de Paulo aos santos de Corinto; porém não um julgamento como se fossemos o Juiz, mas somente como representantes e transmitindo as palavras do único e verdadeiro Juiz. Mas sobre isto ainda teria muito o que se dizer não sendo possível no momento.

Para falar da parte das mulheres a que o texto fala, criei um novo post: “A Cabeça da Mulher”.

Minha esperança é que o Senhor ilumine os olhos do seu coração.

Paz.

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